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Rudolf Hess

Origem: Wikipedia, a enciclopedia livre.
Nota: Se procura o chefe do campo de concentracao de Auschwitz-Birkenau, veja Rudolf Hoss.
Rudolf Hess
Hess em 1933
Vice-Fuhrer do NSDAP
Periodo21 de abril de 1933 - 12 de maio de 1941
FuhrerAdolf Hitler
Antecessor(a)Nenhum
Sucessor(a)Martin Bormann (Chanceler do NSDAP)
Reichsminister (sem pasta)
Periodo1 de dezembro de 1933 - 12 de maio de 1941
ChancelerAdolf Hitler
Dados pessoais
Nome completoRudolf Walter Richard Hess
Nascimento26 de abril de 1894
Alexandria, Egito
Morte17 de agosto de 1987 (93 anos)
Spandau, Berlim
Alemanha Ocidental
Nacionalidadealemao
Alma materUniversidade de Munique
ConjugeIlse Prohl (1927-1987)
Filhos(as)Wolf Rudiger Hess
Partido NSDAP
ProfissaoPolitico
Assinatura

Rudolf Walter Richard Hess (ou Hess) (Alexandria, 26 de abril de 1894 - Berlim, 17 de agosto de 1987), foi um politico de destaque da Alemanha Nazi. Nomeado Vice do Fuhrer (Stellvertreter des Fuhrers, em alemao) por Adolf Hitler em 1933, prestou servico neste cargo ate 1941, quando viajou de aviao, sozinho, para a Escocia, numa tentativa de negociar a paz com o Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial. Foi detido e, posteriormente, julgado por crimes de guerra, sendo condenado a prisao perpetua.

Hess alistou-se no 7.o Regimento de Artilharia Terrestre da Baviera no inicio da Primeira Guerra Mundial. Foi ferido por diversas vezes e recebeu a Cruz de Ferro de segunda classe, em 1915. Pouco antes da guerra terminar, Hess matriculou-se na forca aerea como piloto-aviador, mas nao chegou a combater. Deixou as forcas armadas em dezembro de 1918 com a patente de Leutnant der Reserve (Tenente de Reserva).

No outono de 1919, Hess entrou para a Universidade de Munique, onde estudou geopolitica com Karl Haushofer, um proponente do conceito de Lebensraum ("espaco vital"), que mais tarde se tornaria um dos pilares da ideologia do Partido Nazi. Hess juntou-se ao NSDAP em 1 de julho de 1920, e esteve ao lado de Hitler em 8 de novembro de 1923 no Putsch da Cervejaria, uma tentativa falhada dos nazis de tomarem o controlo do governo alemao. Durante o tempo na prisao de Landsberg devido ao golpe, Hess ajudou Hitler a escrever a sua obra Mein Kampf, que se tornou em uma das fundacoes da plataforma politica do NSDAP. Depois da tomada de poder nazi em 1933, Hess foi designado para Vice-Fuhrer do NSDAP, e recebeu um cargo no gabinete de Hitler. Passou a ser o terceiro homem mais poderoso da Alemanha, atras de Hitler e Hermann Goring. Para alem de aparecer em manifestacoes e palestras em nome dele, Hess redigiu grande parte da legislacao, incluindo as Leis de Nuremberg de 1935, as quais retiravam os direitos dos judeus na Alemanha, e que estiveram na origem do Holocausto.

Hess continuou o seu interesse na aviacao, e aprendeu a pilotar os mais modernos avioes que estavam a ser desenvolvidos no inicio da Segunda Guerra Mundial. Em 10 de maio de 1941, voou sozinho para a Escocia, onde esperava reunir-se com Douglas-Hamilton, o qual ele pensava fazer parte da oposicao ao governo britanico, para falar sobre acordos de paz. Hess foi preso de imediato a sua chegada, e detido sob custodia britanica ate ao final da guerra, voltando a Alemanha para ser julgado nos Julgamentos de Nuremberg, em 1946. Durante uma grande parte do julgamento, alegou sofrer de amnesia, mas, mais tarde, admitiu tratar-se de um estratagema. Hess foi condenado a prisao perpetua por crimes contra a paz, e foi transferido para a Prisao de Spandau. A sua familia e destacados politicos alemaes, tentaram que fosse libertado mais cedo, mas foram impedidos pela Uniao Sovietica. Morreu em 1987, em Spandau, com 93 anos de idade, em circunstancias nao totalmente esclarecidas. Apos a sua morte, a prisao foi demolida para evitar que se tornasse um local de culto neo-nazi.

Primeiros anos

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Hess, o mais velho de tres irmaos, nasceu em 26 de abril de 1894 em Alexandria, Egipto, no seio de uma familia de etnia alema O seu pai, Fritz Hess, era um prospero comerciante da Baviera, e a sua mae chamava-se Clara Munch. O seu irmao, Alfred, nasceu em 1897, e a sua irma, Margarete, em 1908.[1] A familia Hess vivia numa villa na costa egipcia perto de Alexandria, e passaram a ir a Alemanha frequentemente a partir de 1900, ficando na sua casa de Verao em Reicholdsgrun (actualmente parte de Kirchenlamitz) nas montanhas Fichtel. Hess frequentou uma escola protestante de lingua alema em Alexandria entre 1900 e 1908, indo, depois, estudar para a Alemanha para um colegio interno em Bad Godesberg. Demonstrou uma aptidao para ciencias e matematica, mas o seu pai queria que ele seguisse o negocio da familia, Hess & Co., e entao enviou-o, em 1911, para estudar na Ecole superieure de commerce em Neuchatel, Suica. Depois de um ano la, Hess frequentou um curso para aprendiz numa empresa comercial em Hamburgo.[2][3]

Primeira Guerra Mundial

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Cruz de Ferro de 2.a Classe de Rudolf Hess recebida na Primeira Guerra Mundial. Foi confiscada pela Real Artilharia Canadiana quando Hess foi detido na Escocia. Museu do Exercito, Citadel Hill, Halifax.

Poucas semanas depois da Primeira Guerra Mundial ter comecado, Hess alistou-se no 7.o Regimento de Artilharia Terrestre bavaro. A sua primeira experiencia de guerra foi contra os britanicos no Somme;[4] Hess esteve presente na Primeira Batalha de Ypres. Em 9 de novembro de 1914, Hess foi transferido para o 1.o Regimento de Infantaria, estacionado perto de Arras. Recebeu a Cruz de Ferro de 2.a Classe e foi promovido a Gefreiter (cabo) em abril de 1915. Depois de receber treino na Area de Treino de Munster, foi promovido a Vizefeldwebel (oficial senior nao-comissionado) e recebeu a Cruz de Merito Militar bavara. No regresso as linhas da frente em novembro, combateu em Artois, em particular na batalha pra a tomada da cidade de Neuville-Saint-Vaast. Depois de dois meses sem combater devido a uma infeccao na garganta, Hess participou na Batalha de Verdun em maio, sendo atingido por estilhacos na mao e braco esquerdos, em 12 de junho de 1916, numa accao perto da aldeia de Thiaumont. Apos uma interrupcao de um mes para recuperar, foi enviado de novo, para a zona de Verdun, onde permaneceu ate dezembro.[5][6]

Hess foi promovido a chefe de pelotao da 10.a Companhia do 18.o Regimento de Infantaria de Reserva bavaro, que estava colocado na Romenia. Em 23 de julho e, de novo, em 8 de agosto de 1917 voltou a ser ferido; da primeira vez devido a um fragmento de um projectil que estava no chao, no braco esquerdo, e, na segunda, devido a uma bala, no torso, perto da axila, que saiu junto da coluna.[7] Em 20 de agosto, ja se encontrava o suficientemente bem para viajar, e foi enviado para um hospital na Hungria, regressando, tempo depois, a Alemanha, onde esteve a recuperar num hospital em Meissen. Em outubro, foi promovido a Leutnant der Reserve e foi-lhe recomendada, sem, no entanto a receber, a Cruz de Ferro de 1.a Classe. A pedido do seu pai, Hess foi transferido para um hospital perto de casa, chegando a Alexandersbad em 25 de outubro.[8]

Enquanto convalescia, Hess solicitou autorizacao para treinar para piloto de aeronaves, e, apos uma licenca no periodo do Natal com a sua familia, partiu para Munique. Recebeu treino basico em Oberschleissheim e na Base Aerea de Lechfeld entre marco e junho de 1918, e treino avancado em Valenciennes, Franca, em outubro. Em 14 de outubro entrou para a Jagdstaffel 35b, um esquadrao de cacas bavaro equipado com biplanos Fokker D.VII. Durante o servico neste esquadrao, nao chegou a entrar em accao pois a guerra terminou em 11 de novembro de 1918.[9]

Hess (a direita) com o seu professor de geopolitica, Karl Haushofer, c. 1920

Hess foi dispensado das forcas armadas em dezembro de 1918. A situacao financeira da familia sofreu um forte reves, pois os seus negocios no Egipto foram expropriados pelos britanicos.[10] Hess entrou para a Sociedade Thule, um grupo Volkisch anti-semita de extrema-direita, e um Freikorps, uma de muitas organizacoes paramilitares de voluntarios activas na Alemanha na altura.[11] A Baviera testemunhou conflitos frequentes, muitos deles sangrentos, entre grupos de extrema-direita como os Freikorps e forcas de esquerda, numa luta pelo controlo do estado durante este periodo.[12] Na Primavera de 1919, Hess era um daqueles que participava em combates de rua, e liderava um grupo que distribuia milhares de panfletos anti-semitas em Munique.[13][14]

Em 1919, Hess entrou para a Universidade de Munique, onde estudou Historia e Economia. O seu professor de geopolitica era Karl Haushofer, um dos proponentes do conceito de Lebensraum ("espaco vital"), o qual Haushofer citava para justificar a proposta de que a Alemanha devia forcosamente conquistar territorios adicionais na Europa de Leste.[15][13] Mais tarde, Hess apresentou este conceito a Adolf Hitler, tornando-se um dos pilares da ideologia do Partido Nazi (NSDAP).[14][16] Hess ficou amigo de Haushofer e do seu filho Albrecht, um teorico e conferencista.[13]

Ilse Prohl, uma amiga estudante da universidade, cruzou-se com Hess em abril de 1920 quando estavam os dois a procurar um quarto para arrendar na mesma casa. Em 20 de dezembro de 1927 casaram-se, e o seu filho Wolf Rudiger Hess nasceu dez anos mais tarde, em 1937.[17]

Relacionamento com Hitler

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Depois de ouvir, pela primeira vez, o lider do NSDAP, Hitler, a discursar, em 1920 num comicio em Munique, Hess tornou-se completamente devoto ao lider. Ambos acreditavam no mito da facada nas costas, a ideia de que a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial foi causada por uma conspiracao de judeus e bolcheviques e nao propriamente uma derrota militar.[18][14] Hess entrou para o NSDAP em 1 de julho com o numero 16.[19] A medida que o partido ia crescendo, a realizar comicios e reunioes em cervejarias de maior dimensao em Munique, Hess concentrou a sua atencao na obtencao de fundos e nas actividades organizacionais. Em 4 de novembro de 1921, ficou ferido, enquanto protegia Hitler, quando uma bomba, colocada por um grupo marxista na Hofbrauhaus explodiu durante uma reuniao do partido. Hess entrou para as Sturmabteilung (SA) em 1922 e ajudou a organizar e a recrutar os primeiros membros.[20]

Entretanto, os problemas economicos continuaram; a hiperinflacao causou a derrocada de diversas fortunas. Quando o governo alemao comecou a ficar incapaz de pagar as indenizacoes de guerra, e as forcas francesas ocuparam as zonas industriais na regiao do Ruh, em janeiro de 1923, o resultado foi a agitacao popular.[21] Hitler decidiu que era a altura certa para tomar o controlo do governo com um golpe-de-estado do mesmo tipo daquele feito por Benito Mussolini em 1922, a Marcha sobre Roma.[22] Hess estava com Hitler na noite de 8 de novembro de 1923 quando as SA irromperam numa reuniao publica organizada pelo governador da Baviera, o Staatskommissar (comissario do estado) Gustav von Kahr, na Burgerbraukeller, uma grande cervejaria de Munique. Com uma pistola na mao, Hitler interrompeu o discurso de Kahr e anunciou que a revolucao nacional tinha comecado, declarando a formacao de um novo governo com o general Erich Ludendorff, militar destacado na Primeira Guerra Mundial.[23] No dia seguinte, Hitler e varios milhares de apoiantes tentaram dirigir-se para o Ministerio da Guerra no centro da cidade. O tiroteio comecou entre os nazis e a policia: 14 revoltosos e quatro policiais foram mortos. Hitler foi detido em 11 de novembro.[24]

Hess e alguns homens das SA fizeram refens alguns dignitarios na noite de 8 de novembro, levando-os para uma casa a cerca de 50 km de Munique. Quando Hess saiu por breves instantes para fazer um telefonema, no dia seguinte, os homens convenceram o motorista a ajuda-los a fugir. Hess, sem saber o que fazer, telefonou a Ilse Prohl, que lhe levou uma bicicleta para que ele pudesse regressar a Munique. Passou entao um tempo com os Haushofer e depois fugiu para a Austria, mas eles convenceram-no a voltar. Hess foi preso e condenado a 18 meses de prisao pelo seu papel na tentava de golpe-de-estado que, mais tarde, ficou conhecido como Putsch da Cervejaria. Hitler foi condenado a cinco anos de prisao, e o NSDAP e a SA foram ilegalizadas.[25][26]

Hitler discursa num comicio do partido em Munique, 1925

Ambos homens foram para a Prisao de Landsberg, onde Hitler comecou a escrever as suas memorias, Mein Kampf ("A Minha Luta"), a qual ele ditava a Hess e a Emil Maurice, tambem detido. Comercializado pelo editor Max Amann, Hess e outros, o trabalho foi publicado em duas partes em 1925 e 1926. Mais tarde seria publicado num unico volume, que se tornaria um best-seller apos 1930.[27][28] Este livro, com a sua mensagem anti-semita, tornou-se tornou-se no pilar fundamental da plataforma politica do NSDAP.[29]

Hitler foi libertado, condicionalmente, em 20 de dezembro de 1924 e Hess dez dias depois.[27] A ilegalizacao do NSDAP e da SA foi levantada em fevereiro de 1925, e o partido ascendeu a 100 000 membros em 1928 e a 150 000 em 1929.[30] Nas eleicoes de 1928, o partido obteve apenas 2,6% dos votos, mas o apoio da populacao foi subindo ate a tomada do poder em 1933.[31]

Hitler nomeou Hess seu secretario pessoal em abril de 1925 com um salario de 500 Reichsmark por mes, e escolheu-o para seu ajudante pessoal em 20 de julho de 1929.[19][32] Hess acompanhava Hitler quando este discursava por todo o pais e passou a ser o seu amigo e confidente.[27] Em dezembro de 1932, Hess foi nomeado Comissario Central Politico do partido.[33]

Continuando no seu interesse pela aviacao apos o fim da sua carreira militar activa, Hess obteve a licenca de piloto privado em 4 de abril de 1929. O seu instrutor foi o as da aviacao da Primeira Guerra Mundial Theodor Croneiss. Em 1930, Hess adquiriu um BFW M.23b mono-plano patrocinado pelo jornal do partido, o Volkischer Beobachter. Nos inicios da decada de 1930, adquiriu ainda mais dois Messerschmitt, realizando varias horas de voo e tornando-se especialista em aeronaves ligeiras de motor unico.[34]

Vice do Fuhrer

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Rudolf Hess em 1935

No dia 30 de janeiro de 1933, Hitler foi nomeado Chanceler do Reich, o seu primeiro passo para alcancar o controlo ditatorial da Alemanha.[35][36] Hess foi nomeado Vice-Fuhrer do NSDAP em 21 de abril, tendo recebido o cargo de Ministro do Reich sem pasta, em 1 de dezembro.[37] Com escritorios na Casa Castanha em Munique e outro em Berlim, Hess era responsavel por varios departamentos, incluindo o das relacoes com o exterior, financas, saude, educacao e leis.[38] Toda a legislacao passava pelo seu gabinete para aprovacao, excepto a que dizia respeito ao exercito, policia e politica externa, e elaborava e co-assinava muitos dos decretos de Hitler.[39] Como organizador dos comicios anuais de Nuremberga, era ele que habitualmente fazia o discurso de abertura e apresentava Hitler. Hess tambem falava atraves da radio e em comicios por todo o pais, de tal forma frequentemente que os discursos foram compilados num livro em 1938.[40] Hess agia como vice de Hitler em negociacoes com empresarios e membros das classes mais abastadas.[41] Como Hess tinha nascido fora da Alemanha, Hitler escolheu-o para supervisionar os grupos do NSDAP, como o NSDAP/AO, responsaveis pelos membros do partido a viver em outros paises.[42] Hitler instruiu Hess a rever todas as decisoes dos tribunais relacionadas com pessoas consideradas inimigas do partido. Recebeu autorizacao para aumentar as condenacoes de todos aqueles que ele achasse que tinham recebido condenacoes "ligeiras", e tambem tinha o poder para tomar "accoes implacaveis" que ele visse serem necessarias. Aquelas accoes passavam, muitas vezes, por enviar a pessoa para um campo de concentracao ou manda-la fuzilar.[43] Hess recebeu o posto de Obergruppenfuhrer nas Schutzstaffel (SS) em 1934, o segundo posto mais alto na hierarquia da organizacao.[44]

Estandarte do veiculo de Hess enquanto no cargo de Vice do Fuhrer

O regime nazi comecou a sua perseguicao aos judeus pouco depois da chegada ao poder. O gabinete de Hess foi parcialmente responsavel por elaborar as Leis de Nuremberga de 1935, leis estas que tinham serias implicacoes para os judeus da Alemanha, proibindo o casamento entre nao-judeus e judeus alemaes e retirando a cidadania alema aos nao-arianos. O amigo e familia de um amigo de Hess, Karl Haushofer, ficaram sujeitos a esta lei pois Haushofer tinha casado com uma mulher meia-judia, situacao que Hess resolveu emitindo documentos isentando-os desta legislacao.[45][46]

Hess nao construiu uma base de poder nem sequer juntou seguidores a sua volta.[47][48] Era motivado pela sua lealdade a Hitler e a um desejo de lhe ser util; nao procurava poder ou prestigio[37][45] nem tirava partido da sua posicao para enriquecer. Vivia numa casa modesta em Munique.[49] Embora Hess tivesse menos influencia do que outros membros de topo do NSDAP, ele era popular junto das massas. Depois da invasao da Polonia, e do inicio da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, Hitler escolheu-o para segundo na sua sucessao a seguir a Hermann Goring.[50] Pela mesma altura, Hitler nomeou o chefe-de-estado de Hess, Martin Bormann, para seu secretario pessoal, anterior cargo de Hess.[51]

Hess era obcecado pela sua saude e consultava varios medicos. Quando foi detido pelos britanicos, deu-lhes uma lista com os alimentos que nao podia comer. Tal como Hitler, Hess era vegetariano e nao fumava nem bebia. Levava a sua propria comida para o Berghof, defendendo que era biologicamente dinamico, mas Hitler nao aprovava as suas praticas, e assim ele deixou de partilhar as refeicoes com o Fuhrer.[52]

Hess interessava-se por musica, gostava de ler e adorava fazer caminhadas pelas montanhas com Ilse. Ele e o seu amigo Albrecht Haushofer partilhavam o interesse pela astrologia, e Hess tambem gostava da clarividencia e do oculto.[53] O seu interesse pela aviacao era constante. Em 1934, Hess ganhou uma corrida aerea aos comandos de um BFW M.35 num circuito entre a montanha Zugspitze e o aerodromo de Munique, com um tempo de 29 minutos. No ano seguinte, ficou em sexto lugar entre 29 participantes numa competicao semelhante.[54] Com o inicio da guerra, Hess pediu a Hitler para se juntar a Luftwaffe como piloto, mas Hitler nao permitiu, e deu-lhe ordem para que parasse de voar durante o conflito. Hess convenceu-o a reduzir o periodo de paragem para um ano.[51]

Missao de tentativa de paz

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A medida que a guerra avancava, a atencao de Hitler estava agora direccionada para os assuntos exteriores e a conducao da guerra, excluindo tudo o resto. Hess, sem estar directamente ligado aqueles assuntos, sentia-se preparado para lidar com eles, mas era cada vez mais posto a margem dos problemas da nacao e da atencao de Hitler; Bormann tinha suplantado Hess com sucesso em muitas das suas funcoes e apoderou-se da sua posicao ao lado de Hitler. Tambem preocupado com o facto de a Alemanha ficar a bracos com uma guerra em duas frentes, pois o novo plano era a Operacao Barbarossa, a invasao da Uniao Sovietica planeada para ter lugar na Primavera de 1941, Hess decidiu tentar negociar com o governo britanico indo sozinho ao Reino Unido.[55][56][57] Pediu conselhos a Albrecht Haushofer, que sugeriu alguns potenciais contactos junto do governo britanico. Hess decidiu abordar o aviador britanico Douglas Douglas-Hamilton, o duque de Hamilton, o qual nao conhecia. A pedido de Hess, Haushofer escreveu a Hamilton em setembro de 1940, mas a carta foi interceptada pelo MI5 e Hamilton so a recebeu em marco de 1941. Hamilton foi escolhido na crenca errada de que ele era um dos lideres de um partido da oposicao contra a guerra com a Alemanha, e porque era amigo de Haushofer.[58][59][60]

Numa carta escrita por Hess a sua esposa em 4 de novembro de 1940, ele refere que, mesmo nao tendo recebido uma resposta de Hamilton, ele pretendia seguir em frente com o seu plano. Comecou a treinar com o Messerschmitt Bf 110, uma aeronave bimotor de dois lugares, em outubro de 1940, com o instrutor Wilhelm Stor, o piloto-chefe de testes na Messerschmitt. Hess continuou a praticar, em particular realizando voos em zonas rurais, ate encontrar uma aeronave que lhe servisse--um Bf 110E-1/N--que passou a estar de reserva para sua utilizacao. Pediu uma bussola de radio, alteracoes ao sistema de fornecimento de oxigenio, e a instalacao de tanques de combustivel de longo-alcance no aviao, pedidos que foram atendidos em marco de 1941.[61]

Depois de verificacoes finais ao estado do tempo sobre a Alemanha e no mar do Norte, Hess descolou as 17h45 do dia 10 de maio de 1941 do aerodromo de Augsburg-Haunstetten.[62] Foi a ultima de varias tentativas de descolagem na sua missao; as tentativas anteriores tiveram de se canceladas ou por problemas mecanicos do aviao por por mas condicoes atmosfericas.[63] Usando um fato de couro com o posto de capitao, levou consigo dinheiro, artigos de higiene pessoal, uma tocha, mapas e cartas de voo, e um conjunto de 28 medicamentos diferentes, tal como barras de dextrose para o ajudar a combater a fadiga e varios produtos homeopaticos.[55][64][65]

Voo para a Escocia

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A sua rota inicial passava por Bona. Hess orientou-se por marcos terrestres para ir fazendo pequenas correccoes a rota. Quando chegou a costa perto das ilhas Frisias, virou para leste durante vinte minutos para ficar fora do alcance dos radares britanicos. Dirigiu-se entao para uma direccao de 335 graus para atravessar o mar do Norte, a baixa altitude inicialmente, mas efectuando a maior parte da viagem a uma altitude de 5.000 feet (1.500 m). As 20h58, alterou o seu rumo para 245 graus, com a intencao de se aproximar da costa do Nordeste da Inglaterra perto da cidade de Bamburgh, Northumberland. Como o sol ainda nao se tinha posto quando fez a aproximacao a costa, Hess voltou para tras, efectuando uma rota em zigzag, para a frente e para tras durante quarenta minutos ate ficar escuro. Por esta altura, os tanques auxiliares do aviao estavam no fim, e Hess decidiu deita-los ao mar. Tambem por esta altura, as 22h08, a estacao britanica Chain Home em Ottercops Moss perto de Newcastle upon Tyne detectou a sua presenca e informou o Filter Room em Bentley Priory. Ao mesmo tempo que outras estacoes de radar o iam detectando, a sua aeronave recebeu o codigo "Raid 42".[66]

Destrocos do Messerschmitt Bf 110 de Hess

Dois Spitfire do Esquadrao n.o 72, Grupo n.13 da RAF que ja se encontravam em operacao foram enviados para interceptar o aviao de Hess, mas nao conseguiram localiza-lo. Um terceiro Spitfire enviado de Acklington as 22h20, tambem fracassou na intercepcao do Messerschmitt Bf 110; por esta altura ja era noite cerrada e Hess teve de reduzir a sua altitude de tal forma que o voluntario de servico na estacao do Royal Observer Corps (ROC) em Chatton conseguiu identifica-lo como sendo uma aeronave Bf 110, e registou a sua altitude em 50 feet (15 m). Seguido por outras estacoes do ROC, Hess continuou o seu voo ate a Escocia a alta velocidade e a baixa altitude, mas nao conseguiu vislumbrar o seu destino, Dungavel House, e dirigiu-se para a costa oeste para se orientar regressando depois a terra. As 22h35, um Boulton Paul Defiant enviado do Esquadrao n.o 141, da base de Ayr, iniciou a perseguicao a Hess. A sua aeronave estava quase sem combustivel, e assim decidiu subir a 6.000 feet (1.800 m) para saltar de para-quedas, as 23h06. Ficou ferido num pe, ao sair da aeronave ou quando chegou ao chao. O Messerschmitt Bf 110 caiu as 23h09, a cerca de 12 milhas (19 km) a oeste de Dungavel House.[67] Se nao tivesse tido problemas para sair do aviao, teria chegado ao seu destino.[68] Hess considerou a sua facanha como o momento de maior orgulho da sua vida.[69]

Antes da sua partida da Alemanha, Hess entregou ao seu assistente, Karlheinz Pintsch, uma carta enderecada a Hitler com as suas intencoes de dar inicio a negociacoes de paz com os britanicos. Pintsch entregou a carta a Hitler no por volta do meio-dia do dia 11 de maio.[70] Mas tarde, Albert Speer disse que Hitler comentou a partida de Hess como uma das piores desilusoes pessoais da sua vida, pois considerou-a uma traicao.[71] Hitler ficou preocupado com o facto de seus aliados, Italia e Japao, olhassem para o acto de Hess como uma tentativa de Hitler de negociar a paz secretamente com os britanicos. Por esta razao, Hitler deu ordem a imprensa alema para que caracterizassem Hess como um doido que tomou a decisao de voar para a Escocia por sua inteira iniciativa, sem o conhecimento ou autorizacao de Hitler. Alguns membros do governo, como Goring e o ministro da Propaganda Joseph Goebbels, acreditavam que esta ordem de Hitler apenas piorava a situacao pois, se Hess tinha realmente problemas mentais, entao nem sequer devia ter estado a frente de posicoes importantes do governo. Hitler destituiu Hess de todos os seus cargos governamentais, e mandou mata-lo caso regressasse a Alemanha. Aboliu o cargo de Vice do Fuhrer, passando as funcoes de Hess para Bormann, com a designacao de Chefe da Chancelaria do Partido.[72][73] Hitler deu inicio a Aktion Hess, centenas de detencoes de astrologos, falsos curandeiros e ocultistas, que teve lugar no dia 9 de Junho. Esta campanha fez parte de um esforco de propaganda de Goebbels e outros para denegrir Hess e encontrar bodes-expiatorios entre os praticantes do ocultismo.[74]

O jornalista americano H. R. Knickerbocker, que conheceu Hitler e Hess, especulou que Hitler enviou Hess para entregar uma mensagem a Winston Churchill com a futura invasao da Uniao Sovietica, e com uma proposta de negociacao de paz ou ate mesmo uma parceria anti-bolchevique.[75] O lider sovietico, Stalin, achava que o voo de Hess foi planeado pelos britanicos. Stalin manteve a sua crenca ate 1944, quando mencionou a questao com Churchill, o qual insistiu que nao teve qualquer conhecimento do voo.[76]

O livro de Peter Padfield, Hess, Hitler and Churchill (2013) explora o misterio do voo de Hess para o Reino Unido. Padfield sugere que Hess levava documentos com propostas detalhadas de Hitler para negociar a paz entre a Alemanha e o Reino Unido, com esta a tomar uma posicao de neutralidade numa guerra contra a Uniao Sovietica, em troca de uma retirada da Alemanha da Europa Ocidental.[77][78]

Hess aterrou em Floors Farm, Eaglesham, a sul de Glasgow, onde foi descoberto ainda a tentar libertar-se do para-queda por um lavrador local, David McLean. Identificando-se como "Hauptmann Alfred Horn", Hess disse que tinha uma mensagem importante para o duque de Hamilton. McLean levou Hess para a sua casa e contactou a unidade local da Home Guard, que o veio buscar e lavar para a sua sede em Busby. Seguidamente, foi transportado para o posto de policia de Giffnock, ali chegando depois da meia-noite; foi revistado e os seus bens confiscados. Hess pediu por diversas vezes para se encontrar com o duque de Hamilton durante o interrogatorio a que foi sujeito com a ajuda de um interprete, pelo major Graham Donald, o comandante de regiao do Royal Observer Corps. Depois do interrogatorio, Hess ficou foi levado para o Quartel de Maryhill em Glasgow, onde os seus ferimentos foram tratados. Por esta altura, alguns dos seus captores suspeitaram da verdadeira identidade de Hess, apesar de ele continuar a insistir que o seu nome era Horn.[79][80]

Parte da the fuselagem do Bf 110 de Hess. Imperial War Museum (2008)

Hamilton tinha estado de servico como Wing commander em RAF Turnhouse perto de Edimburgo quando Hess chegou, e a sua estacao tinha sido uma das que detectaram e seguiram o progresso do voo. O duque chegou ao quartel na manha seguinte, e depois de examina os pertences de Hess, encontrou-se com o prisioneiro. Hess admitiu de imediato a sua verdadeira identidade e informou sobre a razao do seu voo. Hamilton disse a Hess que esperava continuar a conversa com a ajuda de um interprete; Hess sabia falar ingles mas estava a ter dificuldade em compreender Hamilton. Depois da reuniao, Hamilton analisou os destrocos do Messerschmitt na companhia de um oficial de informacoes, depois regressou a Turnhouse, onde contactou o Foreign Office para se encontrar com o primeiro-ministro Winston Churchill, que estava em Ditchley para passar o fim-de-semana. Nessa noite, entraram em negociacoes preliminares, e Hamilton acompanhou Churchill a Londres no dia seguinte, onde se encontraram com membros do Gabinete de Guerra. Churchill enviou Hamilton com o especialista em assuntos exteriores, Ivone Kirkpatrick, que ja se tinha encontrado com Hess anteriormente, para identificar o prisioneiro, que, entretanto, tinha sido transferido para o Castelo de Buchanan.[81][82] Hess, que tinha preparado longas notas para utilizar durante a reuniao, falou com eles, detalhadamente, sobre os planos de expansao de Hitler e da necessidade de o Reino Unido deixar os nazis com livre espaco de actuacao na Europa, em troca de terem permissao para manter as suas possessoes ultramarinas. Kirkpatrick teve mais duas reunioes com Hess nos dias seguintes, enquanto Hamilton regressou as suas funcoes. Hess, para alem de ter ficado desiludido com o aparente fracasso da sua missao, comecou a reclamar que o seu tratamento medico nao era o adequado e de que havia um plano para o envenenar.[83]

O voo de Hess, e nao o seu destino ou fim, foi anunciado pela primeira vez na Alemanha pela Radio Munique na noite de 12 de maio. Em 13 de maio, Hitler enviou o seu ministro dos Negocios Estrangeiros, Joachim von Ribbentrop, a Italia para informar pessoalmente Mussolini, e a imprensa britanica teve permissao para aceder a reuniao no mesmo dia. No dia seguinte, Ilse Hess ficou a saber do destino e situacao do seu marido quando as noticias sobre ele foram transmitidas na radio alema.[84]

Os destrocos do aviao foram guardados pela Unidade de Manutencao 63 entre 11 e 16 de maio de 1941, sendo levados para Oxford para serem armazenados. A aeronave estava armada com quatro metralhadoras mas nao transportava municoes. Algumas pecas do Messerschmitt Bf 110 sobreviveram, entre elas os dois motores, um dos quais esta no Royal Air Force Museum de Londres. O outro motor e uma peca da fuselagem encontram-se no Imperial War Museum em Londres.[85]

Julgamento e prisao

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Prisioneiro de guerra

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Do Castelo de Buchanan, Hess foi transferido temporariamente para a Torre de Londres e depois para Mytchett Place no Surrey, uma mansao fortificada, designada por "Camp Z", onde permaneceu nos 30 meses seguintes.[86][87] Churchill deu instrucoes para que Hess fosse bem tratado, apesar de nao poder ter acesso a jornais ou radio. Tres oficiais de informacao ficaram no local e foram colocados 150 guardas para vigilancia. No inicio de Junho, Hess obteve autorizacao para escrever a sua familia. Tambem preparou uma carta para o duque de Hamilton, que nunca foi entregue, e os seus constantes pedidos para outras reunioes foram sempre recusados.[88] O major Frank Foley, o especialista-chefe em assuntos alemaes do MI6 e antigo Oficial Britanico de Controlo de Passaportes em Berlim, ficou responsavel por elaborar um extenso e completo relatorio sobre Hess, de acordo com os registos do Foreign Office enviados para o National Archives.[89] O dr. Henry V. Dicks e o dr. John Rawlings Rees, psiquiatra que tratou Hess durante este periodo, verificou que, embora ele nao fosse louco, era mentalmente instavel, com tendencia para a hipocondriase e a paranoia.[90] Hess repetiu a sua proposta de paz a John Simon, 1.o Viscode Simon, entao Lord Chancellor, numa entrevista em 9 de junho. Lorde Simon chamou a atencao que o estado mental do paciente nao era dos melhores; Hess queixou-se de estar a ser envenenado e de ser impedido de dormir.[91] Insistiu em trocar o seu jantar com um dos seus guardas, e tentou que enviassem amostras da comida para analise.[92]

As primeiras horas do dia 16 de junho de 1941, Hess fugiu dos seus guardas e tentou suicidar-se atirando-se das escadas em Mytchett Place. Hess caiu no chao de pedra fracturando o femur da sua perna esquerda. A perna teve de ficar engessada e imobilizada durante doze semanas, e um adicional de outras seis antes de lhe ser autorizado andar com muletas. O capitao Munro Johnson do Corpo Medico do Exercito Real, que analisou Hess, achou que ele iria tentar suicidar-se de novo. Por esta altura, Hess comecou a queixar-se de amnesia. Este sintoma e alguns dos seus comportamentos cada vez mais erraticos, podem ter sido, em parte, um estratagema, porque se ele fosse declarado mentalmente doente, poderia ser repatriado sob os termos das Convencoes de Genebra.[93][94]

Hess foi transferido para o Hospital de Maindiff Court em 26 de junho de 1942, onde ficou durante os tres anos seguintes. O local foi escolhido pelas suas condicoes de seguranca acrescidas e pela menor necessidade de guardas. Hess podia passear a pe e de carros pela zona rural vizinha. Tinha acesso a jornais e outros meios de leitura; escrevia cartas e diarios. A sua saude mental ficou a cargo do dr. Rees. Hess continuou a queixar-se de perdas de memoria e tentou um segundo suicidio em 4 de fevereiro de 1945, quando se espetou com uma faca de pao. O ferimento foi ligeiro, e apenas necessitou de levar dois pontos. Desanimado pelo rumo negativo que a Alemanha estava a ter na guerra, deixou de comer durante a semana seguinte, apenas voltando a comer quando foi ameacado de ser alimentado a forca.[95][96]

A Alemanha rendeu-se incondicionalmente em 8 de maio de 1945. Hess, com acusacoes de crimes de guerra, recebeu ordem para comparecer no Julgamento de Nuremberga sendo transportado para Nuremberga em 10 de outubro de 1945.[97]

Julgamentos de Nuremberg

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Hess na sua cela, Novembro de 1945 na Prisao de Landsberg a aguardar pelo julgamento.
Ver artigo principal: Julgamento de Nuremberga

Os Aliados da Segunda Guerra Mundial realizaram varios tribunais e julgamentos militares, iniciados com um julgamento dos principais criminosos de guerra, entre novembro de 1945 e outubro de 1946. Hess fez parte do grupo dos primeiros 23 julgados, todos acusados de quatro crimes--conspiracao para cometer crimes, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.[98]

A sua chegada a Nuremberg, Hess nao queria entregar os seus pertences, incluindo pedacos de comida que ele afirmava terem sido envenenados pelos britanicos; ele tencionava usa-los como sua defesa durante o julgamento. O comandante do local, coronel Burton C. Andrus do Exercito dos Estados Unidos, informou-o de que nao iria receber nenhum tratamento especial; as amostras foram seladas e confiscadas.[99][100] Os diarios de Hess evidenciam que ele nao reconhecia a legitimidade do tribunal e que o resultado final era inevitavel. Quando chegou estava magro, pesando 65 kilograms (143 lb), e com pouco apetite, mas estava determinado em ter uma boa saude. Como um dos acusados, Robert Ley, se tinha enforcado na sua cela em 24 de outubro, os restantes prisioneiros eram vigiados constantemente.[101][102] Por causa das suas anteriores tentativas de suicidio, Hess era algemado a um guarda sempre que saia da sua cela.[103]

Pouco depois da sua chegada, Hess comecou a mostrar amnesia, facto que que pode ter sido fingido com a esperanca de evitar a sentenca de morte. Os medicos que examinaram Hess concluiram que nao era louco e estava em condicoes de ser julgado.[104] Pelo menos dois dos examinadores, um medico britanico e um sovietico, referiram que a amnesia de Hess seria falsa. O tribunal efectuou varias tentativas para reavivar a sua memoria, como trazer a sua presenca ex-secretarias e mostrar velhos documentarios, mas Hess continuava sem mostrar qualquer reaccao a estes estimulos.[102][104] Quando Hess recebeu permissao para fazer a sua defesa no tribunal a 30 de novembro, admitiu ter fingido a falta de memoria e de fazer parte de uma tactica.[105][106] em 31 de agosto de 1946, falou de novo no tribunal, o ultimo dia das alegacoes.[107]

O processo de acusacao a Hess ficou a cargo de Mervyn Griffith-Jones e teve inicio em 7 de fevereiro de 1946. Ao basear-se nos discursos de Hess, Griffith-Jones tentou demonstrar que ele tinha conhecimento, e concordava com, os planos de Hitler de conduzir uma guerra de agressao violando o direito internacional. Griffith-Jones afirmou que, como Hess tinha assinado importantes decretos governamentais, como o que determinava o servico militar obrigatorio, as leis raciais de Nuremberga, e um decreto que incorporava os territorios polacos conquistados no Reich, entao tambem partilhava da responsabilidade dos actos do regime. Griffith-Jones salientou que a altura escolhida para a viagem de Hess a Escocia, apenas seis semanas antes da invasao alema da UNiao Sovietica, so podia ser vista como uma tentativa de Hess de manter os britanicos fora da guerra. Hess acabou o julgamento mostrando, de novo, sintomas de amnesia, em fevereiro.[108]

Hess (a esq.) e Joachim von Ribbentrop nos Julgamentos de Nuremberga

A defesa de Hess foi apresentada entre 22 e 26 de marco pelo seu advogado, Alfred Seidl. Seidl argumentou que, embora Hess tenha aceitado a responsabilidade por muitos dos decretos que assinou, ele disse que estes assuntos faziam parte de trabalhos internos de um estado soberano e, portanto, fora da competencia do tribunal de crimes de guerra. O advogado chamou a depor Ernst Wilhelm Bohle, o homem que tinha sido chefe do NSDAP/AO, para testemunhar em nome de Hess. Quando Griffith-Jones o questionou sobre as actividades de espionagem da organizacao em varios partidos, Bohle afirmou que qualquer actividade de espionagem em tempo de guerra sao realizadas sem permissao ou conhecimento. Seidl chamou mais duas testemunhas: o ex-presidente da camara de Estugarda, Karl Strolin, e o irmao de Hess, Alfred, ambos negando as acusacoes de que o NSDAP/AO tinha espiado ou fomentado a guerra. Seidl apresentou um resumo da defesa em 25 de julho, no qual tenta refutar a acusacao de conspiracao ao chamar a atencao que Hitler, sozinho, tinha tomado todas as decisoes importantes. Acrescentou que Hess nao podia ser considerado responsavel por quaisquer accoes efectuadas apos ter saido da Alemanha em maio de 1941. Entretanto, Hess afastou-se mentalmente do que estava a decorrer, recusando visitas da sua familia e nao querendo ler os jornais.[109]

O tribunal deliberou durante quase dois meses antes de redigir a sentenca em 30 de setembro, com os acusados a serem sentenciados individualmente em 1 de outubro. Hess foi considerado culpado de duas acusacoes: crimes contra a paz (planeamento e preparacao de agressoes de guerra), e conspiracao com outros lideres alemaes para cometer crimes. Foi absolvido de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Foi condenado a prisao perpetua, tal como outros seis nazis presentes no julgamento. Os sete foram transportados de aviao para uma prisao militar Aliada em Spandau, Berlim, em 18 de julho de 1947.[110][111] O membro sovietico do tribunal, major-general Iona Nikitchenko, entregou um documento onde discordava da sentenca dada a Hess; ele achava que a pena de morte era a indicada.[112]

" Nao me defendo de meus acusadores, aos quais nego o direito de me acusarem, a mim e aos meus compatriotas.

Nao me defendo das acusacoes que competem aos assuntos internos da Alemanha, e que nada importam aos estrangeiros.

Nao protesto contra as declaracoes que afetam a minha honra e a honra de todo povo alemao. Durante longos anos de minha vida me foi concedido viver ao lado do homem mais poderoso produzido por seu povo em sua historia milenar. Mesmo se pudesse, nao desejaria apagar esse tempo de minha existencia.'

Eu me sinto feliz por haver cumprido com o meu dever como alemao, como nacional-socialista e como fiel do Fuhrer.

Nao me arrependo de coisa alguma. Se tivesse de comecar tudo de novo, trabalharia da mesma forma, mesmo sabendo que ao final me aguardaria uma fogueira para a minha morte.

Pouco importa o que podem fazer os homens. Comparecerei diante do Todo-Poderoso. A Ele prestarei minhas contas, e sei que me absolvera.

"
-- Rudolf Hess, perante o tribunal de Nuremberg, em 31 de agosto de 1946[113].

Prisao de Spandau

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Spandau foi colocada sob o Conselho de Controle Aliado, o orgao de gestao responsavel pela ocupacao militar da Alemanha. Era composto por quatro estados membros: Reino Unido, Franca, Estados Unidos e Uniao Sovietica. Cada pais forneceu guardas para a prisao numa rotacao mensal. Depois de os presos terem passado por exames medicos--Hess recusou que lhe examinassem o corpo, e teve que ser agarrado a forca[114]--foi-lhes entregues roupas de prisioneiros e atribuido um numero pelo qual seriam chamados durante a pena. Hess era o numero 7. A prisao tinha uma pequena biblioteca, e os detidos podiam requisitar material de leitura adicional. Os materiais de escrita estavam limitados; cada prisioneiro tinha direito a quatro folhas de papel, por mes, para escrever cartas. Nao podiam falar entre eles sem pedir autorizacao e tinham de trabalhar na prisao, a limpar ou a tratar do jardim.[115] Os presos eram levados para o exterior para efectuarem uma hora de exercicio diario, separados 9 m entre si. Algumas das regras foram ficando menos rigidas com o passar do tempo.[114]

Mudanca de guarda na Prisao de Spandau

As visitas a Spandau eram permitidas e limitadas a meia hora por mes, mas Hess proibiu a sua familia de o visitar ate dezembro de 1969, quando se tornou paciente no Hospital Militar Britanico em Berlim Ocidental devido a uma ulcera perfurada. Por esta altura, Wolf Rudiger Hess tinha 32 anos de idade em 69; desde a partida de Hess para a Escocia, em 1941, que nao o viam. Apos este problema de saude, permitiu que a sua familia o visitasse regularmente. A sua nora Andrea, que costumava levar fotografias e filmes dos seus netos, tornou-se uma das visitas mais apreciadas.[116][117] Os problemas de saude mental e fisica de Hess foram agravando-se durante o cativeiro. Gritava de noite a queixar-se com dores de estomago. Continuava a reclamar que a sua comida estava envenenada e queixava-se de amnesia.[118][119] Um psiquiatra que o examinou em 1957 achou que ele nao estava assim tao doente que merecesse ser transferido para um hospital psiquiatrico.[120] Em 1977, tentou suicidar-se de novo, mas sem sucesso.[121]

Para alem das suas estadas no hospital, Hess passou o resto da sua vida na Prisao de Spandau.[122] Os seus colegas de prisao, Konstantin von Neurath, Walther Funk e Erich Raeder, foram libertados por causa de problemas de saude nos anos 1950;[123] Karl Donitz, Baldur von Schirach e Albert Speer cumpriram a pena na sua totalidade e foram libertados: Donitz em 1956, Schirach e Speer em 1966.[124] A cela numero 600 continuou a ser mantida por sua causa desde a saida de Speer e Schirach ate a morte de Hess em 1987, com um custo estimado de 800 000 marcos alemaes.[125] As condicoes do seu cativeiro melhoraram ao longo do tempo; Hess tinha mais liberdade de movimentos, podia estabelecer a sua propria rotina e actividades, que incluiam televisao, filmes, leitura e jardinagem. Instalaram um elevador para que ele pudesse chegar ao jardim de forma mais facil, e foi-lhe atribuido um medico pessoal a partir de 1982.[117]

O seu advogado, dr. Seidl efectuou varios pedidos de libertacao, logo desde 1947, mas foram sempre recusados, principalmente por causa dos constantes vetos dos sovieticos. Spandau ficava localizada em Berlim Ocidental, e a sua existencia dava aos sovieticos a oportunidade de puderem ter alguma influencia naquele sector da cidade. Para alem disso, os oficiais sovieticos achavam que Hess tinha que saber, em 1941, do ataque iminente ao seu pais.[126] Em 1967, Wolf Rudiger Hess iniciou uma campanha para libertar o seu pai, tendo o apoio de politicos de destaque como Geoffrey Lawrence[nota 1] no Reino Unido, e Willy Brandt na Alemanha, mas sem sucesso, apesar da fraca saude do prisioneiro.[127][128]

Morte e rescaldo

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Neonazistas na marcha a Rudolf Hess, em 2004 em Wunsiedel.

Hess morreu no dia 17 de agosto de 1987, com 93 anos de idade, numa casa de Verao que tinha sido construida no jardim da prisao para servir de espaco para leitura. Ele tirou um fio de uma das lampadas, prendeu-o a uma das janelas e enforcou-se. Num dos seus bolsos, Hess deixou uma pequena mensagem a sua familia a agradecer-lhes por tudo o que fizeram. As quatro potencias emitiram uma declaracao em 17 de setembro com a confirmacao do suicidio. Sepultado, inicialmente, em local secreto para evitar as atencoes dos meios de comunicacao ou as demonstracoes de simpatizantes nazis, Hess voltou a ser enterrado num local pertencente a familia em Wunsiedel, em 17 de marco de 1988, e a sua esposa foi sepultada a seu lado quando morreu em 1995.[129] A Prisao de Spandau foi demolida para evitar que se tornasse num local de culto neo-nazi.[130]

O seu advogado, Dr. Seidl, achou que Hess era demasiado fragil e velho para se ter ele proprio enforcado. Wolf Rudiger Hess por varias vezes queixou-se de que o seu pai foi assassinado pelo Secret Intelligence Service britanico para evitar que revelasse informacoes sobre a ma-conduta britanica durante a guerra. Abdallah Melaouhi, o assistente medico de Hess entre 1982 e 1987, foi demitido do seu cargo no Conselho de Aconselhamento de Imigracao e Integracao no parlamento distrital apos ter escrito e editado um livro sobre uma questao semelhante. Segundo uma investigacao do governo britanico em 1989, as evidencias disponiveis nao apoiavam o argumento de que Hess tinha sido morto, e o Procurador-Geral, Sir Nicholas Lyell mandou arquivar o processo.[131] Alem disso, os resultados da a autopsia concluiam que Hess se tinha suicidado.[130][132][133] Um relatorio emitido em 2012, voltou a levantar duvidas sobre se Hess realmente se tinha suicidado. O historiador Peter Padfield defendeu que a nota de suicidio encontrada no seu corpo aparentava ter sido escrita quando Hess tinha sido hospitalizado em 1969.[134]

Depois de a cidade de Wunsiedel se ter tornado local de peregrinacao e de demonstracoes neo-nazis por altura da morte de Hess, o conselho paroquial decidiu nao prolongar o arrendamento do local da sepultura quando esta expirou em 2011.[135] Com o consentimento da familia, a sepultura de Hess foi reaberta em 20 de julho de 2011 e os seus restos mortais exumados, e cremados. As suas cinzas foram espalhadas no mar por familiares; a pedra tumular, com o epitafio "Ich hab's gewagt" ("Ousei"), foi destruida.[136]

Notas

  1. | Lorde Oaksey foi o presidente do grupo judicial do Tribunal Internacioal Militar em Nuremberga. Manvell & Fraenkel 1971, p. 195.
  • Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipedia em ingles cujo titulo e <<Rudolf Hess>>, especificamente desta versao.

Referencias

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Bibliografia

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Eva Braun (esposa) * Alois (pai) * Klara (mae) * Alois (meio-irmao) * Angela (meio-irma) * Gustav (irmao) * Ida (irma) * Otto (irmao) * Edmund (irmao) * Paula (irma) * William Patrick (sobrinho) * Heinz (sobrinho) * Geli (sobrinha) * Leo (sobrinho) * Blondi (cao)